UNO Março 2017

Pós-verdade, uma nova forma da mentira

A expressão pós-verdade – ou post-truth, em sua versão original – não é um dado recente, mas se converteu em um viral – como chamam nas redes sociais – e, portanto, de uso generalizado, durante a campanha do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A sua massiva utilização levou o Dicionário Oxford de 2016 a elegê-la como a palavra do ano. É verdade que esta classificação não implica em qualificá-la de forma correta ou lícita, mas supõe uma certa subestimação dos princípios éticos que o conceito da pós-verdade viola.

 

Sobre a noção de pós-verdade, cabe defini-la como “aquilo que é aparentemente verdadeiro, resultando mais importante do que a própria verdade”. Gregorio Cano Figueroa, no jornal Clarín, edição de 22 de novembro de 2016, observa que a pós-verdade é o fenômeno em que “os fatos objetivos são menos influentes na formação da opinião pública que o apelo à emoção e à crença popular”. Isto significa que as sociedades, deslumbradas com o discurso e com a propaganda, deixam de lado a verificação e a análise dos fatos, para, mansamente, aceitar como válidas as mensagens de líderes, políticos e aventureiros.

 

PRINCÍPIOS DA CONVIVÊNCIA HUMANA

 

Na realidade, a pós-verdade deturpa os princípios básicos da convivência humana, como o culto à verdade e à honestidade, e favorece as atitudes que se valem do engano e da mentira ou das meias-verdades para que prevaleçam seus interesses e vontades. A verdade é ou não é. Não existe a meia-verdade nem mesmo a verdade subjetiva. Falar de “minha verdade” é um atentado à razão. Pode haver opiniões e sobre este assunto cabe a mais ampla liberdade para que cada pessoa emita a sua, sobre qualquer assunto. Mas se trata de fatos objetivos como, por exemplo, o número de habitantes de um país, seu Produto Interno Bruto, o nível de educação dos seus cidadãos, a situação financeira de uma empresa, a dívida pública ou o déficit fiscal, não cabe nada além da realidade objetiva, que é uma só. Tudo o que se proponha a dissimular a verdade, seja modificando-a grosseiramente – como a manipulação das estatísticas –, seja ocultando fatos que desinformam o leitor, seja valendo-se do uso de artifícios que alteram uma contabilidade, são adulterações da verdade. Ao longo da história, a tergiversação e a fraude estiveram presentes. Vale recordar aquela conhecida estrofe de Ramón de Campoamor (1807-1901): “Neste mundo traiçoeiro, nada é verdade ou mentira, tudo está de acordo com a cor do cristal com que se olha”.

A pós-verdade deturpa os princípios básicos da convivência humana, como o culto à verdade e à honestidade.

Se a pós-verdade refere-se à prevalência dos sentimentos e emoções sobre a realidade objetiva, e se a ela recorrem, principalmente políticos demagogos e populistas, em busca do apoio dos cidadãos, o que existe é uma grosseira distorção da realidade em busca do apoio popular. E as consequências são óbvias: o voto a favor de Trump – verdade que com um sistema complexo e pouco compreensível, já que Clinton obteve a maioria do voto popular – levou à presidência da primeira potência um personagem de trajetória obscura, dominado por seus impulsos e que parece que governará por meio de tweets. É o resultado de uma campanha baseada na emoção, que deixou de lado a análise objetiva e racional. É preciso reconhecer que a candidata alternativa não era a melhor, mas é indigno que o fato tenha lugar na democracia mais antiga do planeta e que seus autores, na pós-verdade ou post-truth, defendam-se com cinismo para voltar à batalha. A demagogia e o populismo, que escondem a realidade e transbordam em ofertas e promessas ocas e irrealizáveis ​​em busca dos votos, eram mais próprias dos países latino-americanos do que dos anglo-saxões. Mas a Europa tampouco esteve livre desses fenômenos: Hitler e Mussolini, com os efeitos brutais da Segunda Guerra Mundial, foram resultado do avassalamento dos alemães e dos italianos, obnubilados pelo charlatanismo de seus líderes.

 

CONSEQUÊNCIAS POLÍTICAS

 

A eleição de Trump, a votação majoritária, no Reino Unido, para abandonar a União Europeia, o Brexit, e a rejeição das reformas constitucionais lideradas pelo ex-primeiro-ministro italiano Matteo Renzi, são consequências do neopopulismo.

 

Nos Estados Unidos proliferam-se as manifestações contra Trump e suas primeiras decisões. O Reino Unido enfrenta a sua eventual desintegração pela possível separação da Escócia, que não quer deixar de ser parte da União Europeia. E a Itália se vê atolada, mais uma vez, em uma muito perigosa instabilidade política.

Nos Estados Unidos proliferam-se as manifestações contra Trump e suas primeiras decisões.

Junto com a necessidade de voltar ao culto dos princípios e normas fundamentais como a honestidade e a verdade, a sociedade universal – agora tão integrada – deverá rejeitar e condenar o engano e a mentira – a pós-verdade –, que facilitam a proliferação dos regimes autoritários e corruptos. E também as práticas privadas, cujo único objetivo é o dinheiro, sem reparar nos meios utilizados para obtê-lo.

Francisco Rosales
Sócio-fundador e presidente da Corral Rosales Carmigniani Pérez / Equador
É sócio-fundador e presidente da Corral Rosales Carmigniani Pérez. É Doutor em direito e advogado pela Pontifícia Universidade Católica do Equador. Tem vasta experiência na consultoria jurídica em empresas e negócios. Foi ministro da Indústria, Comércio e Integração, assim como membro e presidente do Conselho de Bancos e várias empresas industriais e comerciais de Quito, Guayaquil e Cuenca. Também atuou no cargo de editorialista por 36 anos, em jornais como o El Comercio e Hoy, de Quito, nos quais comentava questões políticas, econômicas e internacionais. [Equador].

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